Os desafios da educação para a população transexual da UFRRJ

O medo e o futuro incerto das pessoas que ainda são assombradas por seu nome de registro nas universidades

Por: Carolina Carvalho, Eduardo de Oliveira, Flávia Fabrício, Thaís Melo e Uli Campos Leal.

Estar em uma universidade federal, ter uma vida atarefada, muitas vezes precisar sair de casa e se distanciar da família. Essa é a realidade de muitos estudantes que decidem viver intensamente a vida acadêmica em uma universidade pública. Como se tudo isso já não bastasse, todas as dificuldades enfrentadas, imagina adicionar a isso a busca por uma identidade e o preconceito. É o que acontece, na maioria das vezes, com os estudantes transgêneros.

O termo transgênero corresponde à pessoa que não se identifica com o gênero do seu nascimento. A identidade de gênero vai além do corpo, da forma de se vestir e agir. É sobre aceitar-se e ser o que realmente é. Uma das diversas dificuldades enfrentadas pelos trans está em ter uma vida acadêmica como qualquer outra pessoa. A falta de oportunidades e a discriminação são recorrentes no cotidiano. E na nossa universidade parece não ser diferente.

Ollie Barbieri enfrentou a falta de informação quando ainda na adolescência percebeu que era trans.

“A população trans tem uma dificuldade na inserção no mercado de trabalho e também de permanência na educação. Principalmente porque as instituições normalmente não estão preparadas para lidar com ela. Automaticamente a gente é expulsa desse meio, o que dificulta muito mais na questão do trabalho porque se você não tem educação, como é que você vai arrumar emprego?.” Ollie Barbieri, com 25 anos e estudante de Filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro poderia ser mais um estudante enfrentando os desafios normais da rotina universitária. Mas a maneira com que a comunidade acadêmica lida com sua transgeneridade tornou o meio acadêmico um ambiente de ansiedade e medo, o que já o fez pensar em desistir de sua graduação diversas vezes. No momento ele está com a matrícula trancada e resolveu se afastar um período por conta da pressão psicológica causada pelo cotidiano agressivo da universidade.

Há pouco mais de um ano (28/04/2016), Dilma Roussef assinava o Decreto nº 8.727/2016, que exige a adoção do nome social de pessoas transexuais e travestis em todos os órgãos públicos brasileiros, o que inclui colégios e universidades. No entanto, muitas instituições seguem ignorando a medida e afastam o sonho da formação universitária para muitas pessoas em todo o país. A UFRRJ aderiu apenas parcialmente o nome social: a carteira de identificação estudantil carrega junto o nome de registro do estudante, o que além de constranger e ferir a autonomia do nome do estudante também confunde funcionários e já resultou até em acusações de falsificação ideológica.

O processo de requerimento de retificação para o nome social no Brasil ainda é demorado e muito burocrático devido ao conservadorismo presente em muitos membros do órgão judiciário. A saída é fazer o requerimento dentro das instituições e empresas em que a pessoa se encontra. Na Rural, as chamadas, e-mails coletivos e todo o sistema do aluno permanecem com o nome de registro do estudante, o que causa um ambiente nocivo para os transexuais. “Coisas simples que pessoas cis têm, como poder usar o banheiro, ter o seu nome respeitado, pra nós é um grande desafio. Eu já fui desrespeitado diversas vezes, chamaram o meu nome de registro em público, fui exposto e constrangido. A Rural tenta usar de medidas paliativas que na verdade não solucionam o problema de fato.”

Criado por uma família religiosa, Ollie descobriu sua identidade de gênero aos 14 anos, quando viu uma matéria na televisão sobre “uma mulher que tinha virado homem”. Hoje, dez anos depois, ele acredita que seria diferente por conta da facilidade de acesso a informação sobre o assunto. Infelizmente, a descoberta veio acompanhada da pressão familiar e religiosa, que o convenceram a procurar uma cura. Depois de muitos cultos de libertação, procedimentos psicológicos e médicos, o resultado foi o diagnóstico de ansiedade e depressão, marcadas por automutilação e três tentativas de suicídio.

Dois anos atrás, Ollie encontrou apoio em uma igreja inclusiva, Igreja Cristã Contemporânea, o que lhe deu forças pra se aceitar e se restabelecer socialmente. Ele procurou ajuda psicológica e começou o tratamento hormonal pelo SUS. Hoje, ele fala sobre autoaceitação e apoio familiar, elementos que foram essenciais para o término do seu ensino médio, também interrompido, sua aprovação em um concurso público e estabilidade da sua saúde mental. “Só depois que eu comecei o meu tratamento hormonal que eu sentei com meus pais e conversei com eles. Foi bem difícil no início. Ainda sofro um pouco de transfobia em casa porque eles ainda não conseguem respeitar meu nome social e não usam os pronomes corretos o tempo todo. Eles acabam justificando esse comportamento na crença deles e também no costume, eles conviveram comigo por 25 anos e tem quase dois anos que eu me assumi completamente, então pra eles é difícil. Eu acredito que é uma questão de tempo.”

Manoela é militante pela causa trans e tenta cada vez mais conquistar seus direitos.

Ollie não está sozinho em sua luta diária. A estudante do sexto período de Belas Artes da Rural, Manoela Monteiro, também nos mostra todas as suas dificuldades enfrentadas. A história de Manu, desde sua descoberta sobre o que era transgeneriedade, começa com o desconforto consigo mesma durante toda a infância e mil e uma dúvidas sobre o porquê de não se sentir confortável no meio masculino. “Eu sempre me senti desconfortável (…). Até na escola mesmo, eu tentava socializar com os outros meninos, mas eu não me sentia confortável naquele universo”, explicou.

Entre momentos de silêncio, a estudante relatou que sempre soube que havia algo diferente em si desde pequena. “Antes dos 18 anos, as pessoas falavam que eu era um garoto homossexual, e eu falava ‘Tá’. Dentro de mim eu sabia que eu não era”, relata Manu.

Foi apenas com 18 anos que ela se assumiu como trans. Mas não foi um processo fácil. Um dos pontos levantados por Manu, é como muitas pessoas trans não conseguem se reconhecer, pois são sempre rotuladas como apenas homossexuais. Exatamente o que aconteceu com ela. Antes da transição, Manu apenas era conhecida como Gay.

Manu conta que nunca foi tratada mal pela família, mas que até hoje é difícil eles lidarem com sua transição, principalmente na parte do nome e pronomes femininos. “Quando eu decidi mesmo me assumir com trans, mudar o meu nome e falar que eu era uma mulher, eu tive dificuldade com algumas pessoas. De acostumar aquelas pessoas a me chamarem pelo meu nome, a respeitar meu gênero, respeitar os pronomes femininos. E isso eu tenho dificuldade até hoje. Eles não entendem, eles não conseguem. Mesmo eu sendo toda mulher”.

Em relação ao nome, Manu contou que a identidade para uma pessoa trans é muito importante, pois é o nome que os representa. Todo início de semestre ela precisa pedir para cada professor a chamar pelo nome de Manoela e não o nome de registro.

O preconceito existe, não podemos negar. Apesar de se reconhecer como privilegiada por estar dentro de uma universidade e ter acesso ao conhecimento e educação, Manu chama atenção para o preconceito que existem dentro do mercado de trabalho. “Ocupamos espaço, como eu estou aqui fazendo na universidade, acredito que 90% das travestis estão se prostituindo. Isso é terrível. Por falta de oportunidade no mercado de trabalho, por falta de oportunidade de estudo”, explica. Para a estudante, o preconceito leva empresas a evitarem o contrato de pessoas da comunidade LGBT devido o pensamento de “espantar a clientela”.

Manoela afirma que toda sua luta vale à pena e incentiva as pessoas a buscarem a felicidade e o bem estar mesmo diante de todos os preconceitos. “A gente ser mesmo o que a gente é. Toda pessoa trans sabe o valor disso. E se você perguntar para todas, vai ter a mesma resposta, que vale toda dificuldade pra gente poder ser quem a gente é”.

Guilherme enfrentou o preconceito não só na faculdade, mas também no mercado de trabalho.

Guilherme Leoni de Paula, de 19 anos, estudante de Ciências Sociais na Rural poderia ser só mais um jovem aluno vivendo os altos e baixos da vida universitária, mas não é. O estudante tem que enfrentar muito mais, apesar da pouca idade. Guilherme não foi sempre Guilherme. Ele nasceu menina, mas aos 14 anos percebeu que não se identificava com tudo aquilo que a sociedade define como “coisas de menina”.

Desde então, ele teve que lutar pelo simples direito de ser quem ele queria ser. Teve que lutar para conquistar o direito de ser chamado de Guilherme, isso tudo por ser transexual. Há cerca de um ano e meio ele começou a tomar hormônios para adquirir características masculinas como, por exemplo, o bigode que ostenta orgulhosamente. Mas a mudança física vai muito além, ele também pretende fazer diversas cirurgias que possuem uma importância enorme para sua vida. “São cirurgias que são meramente estéticas, mas elas impactam muito na forma como você se sente em relação a você mesmo”, afirma.

Guilherme já sofreu inúmeros preconceitos dentro e fora da universidade. “Eu já tive atendimento médico negado no postinho, já discuti com professores que não respeitavam o nome social. Eu já tive discussão com colegas que não aceitavam alguma coisa sobre a transgeneridade, já briguei com muita gente. Inclusive no meu curso eu tenho uma má fama justamente porque eu brigo com todo mundo, não importa quem seja.”

O estudante deu entrada em 2013 no decreto de nome social, e só foi aceito em 2015. Como tal decreto é baseado em uma lei antiga, só garantiu a ele o direito de ter seu nome na carteirinha da universidade, porém junto com o nome de registro. Assim, na hora de chamar seu nome para dar presença, os professores também o chamam pelo nome de registro.

Mas não é só na universidade que ele é tratado de forma diferente por ser trans, no mercado de trabalho o preconceito é ainda maior. Guilherme é formado em Agropecuária, foi finalista da Olimpíada Brasileira de Agropecuária, tem artigos publicados em inglês sobre o assunto, tem simpósio, já deu uma palestra para um dos diretores da Embrapa e agora está estudando Ciências Sociais. Com tudo isso esperaríamos que ele estivesse em um emprego na área da agropecuária, certo? Mas na prática não é bem assim. Mesmo com toda essa qualificação, a dificuldade em conseguir emprego o levou a trabalhar na área de Telemarketing.

Mas a luta de Guilherme e de quase todas as pessoas transexuais começa bem antes da entrada no mercado de trabalho e no lugar onde eles deveriam ser amados e aceitos como são. A luta contra o preconceito muitas vezes começa dentro de suas próprias casas. De acordo com estudante, ele já morava sozinho quando seus pais descobriram que ele era transexual, mas embora fosse financeiramente independente, ainda era menor de idade e seus pais não aceitaram bem a descoberta. “Eu já tava em transição há um tempão quando contei pra minha família e a reação foi ruim.” Mas nem todo mundo teve uma reação ruim, os amigos aceitaram a notícia muito bem.

Outra batalha que ele teve que enfrentar foi para mudar de nome com toda a burocracia que é imposta. “Teve muita burocracia, mas para mim foi mais fácil do que geralmente é, porque costuma demorar muito tempo. O mais rápido que eu já tinha visto eram três meses e isso sem você mudar o sexo nos documentos, só mudando o nome. O meu eu dei entrada no final de 2016 e no dia 27 de janeiro eu vi que foi aceito pela minha juíza. Eu tive que juntar muita documentação e isso porque tive aconselhamento legal, quem não tem, nunca vai conseguir fazer isso sozinho.”

Atualmente, cinco anos depois de Guilherme ter se assumido trans, seus pais aceitaram a mudança e sua relação com eles é boa. Ele conseguiu mudar seu nome oficialmente. Mesmo já tendo conquistado algumas coisas, ele sabe que ainda tem um longo caminho pela frente e que não será fácil.

Para aqueles que, assim como ele, se descobriram ou estão se descobrindo transexuais, Guilherme deixou um recado: “eu diria persista, porque vale a pena. No início eu achei que não ia conseguir coisa nenhuma e mesmo assim eu consegui. Então, não desistam.” E é isso que o Guilherme e muitas outras pessoas trans vêm fazendo, persistindo. Apesar de todos os obstáculos, dos olhares maldosos ou curiosos, do preconceito, da burocracia, da falta de informações sobre o assunto, eles persistem para que talvez no futuro outras pessoas transexuais não precisem passar pelo que o Guilherme, o Ollie, a Manu e todas as pessoas trans têm que passar diariamente só por serem como são.

Ouça abaixo as entrevistas de áudio:


Glossário

Trans

Se uma pessoa possui como sexo atribuído ao nascimento o feminino, mas se identifica com o sexo masculino, é considerado um homem trans. Já se o sexo atribuído ao nascimento for o masculino, mas a pessoa se identifica com o feminino, é considerada mulher trans.

Travesti

Pessoa que não se identifica com o sexo do seu nascimento e se veste e/ou se comporta como pessoas do sexo oposto.

Cis

Pessoas que se identificam com o gênero do nascimento.


Fotos: Arquivo pessoal dos entrevistados.

Ollie Barbieri enfrentou a falta de informação quando ainda na adolescência percebeu que era trans.

Manoela é militante pela causa trans e tenta cada vez mais conquistar seus direitos.

Guilherme enfrentou o preconceito não só na faculdade, mas também no mercado de trabalho.

  • Generic selectors
    Exact matches only
    Search in title
    Search in content
    Search in posts
    Search in pages